sábado, 19 de setembro de 2020

A GRANDE VERDADE


 

A Grande Verdade

Daniel Lima

A toda luz corresponde uma escuridão, já que escuridão é ausência de luz. Da mesma forma, cada mentira é a negação de uma verdade. Na semana passada falei sobre a Grande Mentira, que é essencialmente a distorção de quem é Deus e a sua substituição por qualquer coisa criada (Romanos 1.18-23). As consequências para quem acredita na Grande Mentira são a distorção do seu raciocínio e o escurecer de seus corações. Seguindo o argumento acima, a Grande Mentira nega a Grande Verdade.

A Grande Verdade não se resume apenas a uma declaração ou mesmo a várias afirmações. A Grande Verdade é uma pessoa: Jesus Cristo.

Respondeu Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.” (João 14.6)

No entanto, simplesmente afirmar que Jesus é a verdade não descreve a nós a riqueza de informações e implicações por trás dessa declaração. Por isso eu te convido a me acompanhar enquanto analiso alguns dos conceitos fundamentais da passagem de Colossenses 1.15-23, para compreendermos melhor do que se trata a Grande Verdade.

No verso 15 Paulo declara que Jesus é a revelação, a imagem de Deus. Por isso, como Deus é a base de toda realidade, podemos dizer que ele é a própria verdade. Em uma conversa há alguns anos com um jovem que atravessava um momento delicado de decisão sobre sua vida, ele, após alguns momentos, reclamou: “Não dá pra conversar contigo Daniel... Você sempre volta pra Bíblia!”. Sei que isso era frustrante para ele e sua reclamação tinha um tom de acusação, mas eu me senti elogiado. “Realmente”, eu respondi, “já descobri há muito tempo que não posso confiar em mim mesmo para determinar o que é verdade e o que não é. Preciso de algo muito maior e mais seguro. Eu depositei minha fé em Jesus, conforme revelado na Bíblia.”

Nos versos 16-17 Paulo descreve características de Jesus como Criador. No verso 17 uma frase se destaca para mim: “... nele tudo subsiste”. O sentido dessa declaração é que nossa própria existência está baseada em Jesus. Ele segura os átomos da existência por sua vontade. Assim como um sonho ou imaginação nossa, caso Deus decidisse deixar de “pensar em nós”, deixaríamos de existir. É em sua atenção e em seu poder que reside nossa própria existência.

Nos versos 21-23a temos um explicação desta Grande Verdade. Vamos ler com cuidado para acompanharmos o argumento do apóstolo Paulo:

Antes vocês estavam separados de Deus e, na mente de vocês, eram inimigos por causa do mau procedimento de vocês. Mas agora ele os reconciliou pelo corpo físico de Cristo, mediante a morte, para apresentá-los diante dele santos, inculpáveis e livres de qualquer acusação, desde que continuem alicerçados e firmes na fé...

Primeiramente, lemos que éramos inimigos de Deus. Nós não éramos, nem somos, intrinsecamente bons. Essa verdade tem sido combatida pelo ser humano desde os primórdios. Diferentes ideologias e religiões têm declarado que somos bons, que o ser humano é puro, não tem pecado. De fato, a própria expressão pecado tem sido combatida e denunciada pela sociedade atual como opressiva, retrógrada e radical, até mesmo por pregadores ditos cristãos. No entanto, um aspecto fundamental da grande verdade é este: somos culpados! Se negarmos nossa culpa, se nos recusarmos a encarar nossos erros, a Grande Verdade não tem sentido. A própria morte de Cristo se torna inútil.

Se negarmos nossa culpa, se nos recusarmos a encarar nossos erros, a Grande Verdade não tem sentido.

O verso 22 indica que fomos reconciliados pelo corpo e morte de Cristo para então sermos apresentados santos e irrepreensíveis. Mais uma vez, a Grande Mentira procura negar que precisamos de reconciliação. Assim, afirmações de que Deus não está irado, de que ele não tem nada contra nós e de que na verdade todos seremos aceitos por ele devido ao seu amor abundam. Procura-se apresentar um Deus que ama e não tem princípios morais; tudo pode, basta “amar”, mesmo que a definição de “amar” seja em geral muito parecida com “o que me faz sentir bem”.


A Grande Verdade é que existe um Deus, que ele é todo poderoso e que nossa própria existência depende dele. Ao mesmo tempo, nós somos inimigos pelo nosso “mau procedimento” e precisamos desesperadamente de reconciliação com ele. Essa reconciliação não é como um indulto sem custo, pois exigiu a própria vida de Cristo. O ser humano só se torna inculpável, livre de qualquer acusação, a partir do momento em que reconhece este Deus Todo Poderoso, reconhece sua necessidade radical e se entrega em fé.

Em um mundo que se esforça tanto para promover a Grande Mentira e para sufocar a Grande Verdade, eu te convido a buscar mais e mais aquele que é a própria verdade. Oro para que a verdade tome mais e mais raiz na sua e na minha vida, e, como resultado, possamos refletir em nosso viver a imagem do Pai.


sábado, 12 de setembro de 2020

A GRANDE MENTIRA

 

A Grande Mentira

Daniel Lima

A vida parece ser feita em camadas. Conhecemos alguém e a primeira impressão pode nos atrair ou repelir. No entanto, com enorme frequência, ao conhecer melhor a pessoa podemos perceber camadas mais profundas que vão confirmar ou transformar nossa primeira impressão. Assim, alguém com quem não simpatizamos a princípio pode vir a ser nosso amigo mais fiel e íntimo. O mesmo ocorre em quase todas as áreas, por isso primeiras impressões podem ser tão enganosas.

O mesmo ocorre com nossas lutas espirituais. Um vício nunca se limita apenas ao prazer imediato que nos confere o objeto de nossa adicção. Por trás de toda dependência há um grande vazio emocional ou existencial que cada um procura preencher como pode. E por trás desse vazio há crenças e posturas que permitem que ele continue a exercer sua influência em nossa vida. Acerca disso, as palavras de C. S. Lewis são tão esclarecedoras:

Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para um outro mundo.[1]

Nesse sentido, uma mentira existe como fundamento de todo conflito humano. Podemos chamá-la de “A Grande Mentira”. Um resumo básico seria: Deus é soberano e bom, mas eu nego isso e tento encontrar meu próprio caminho. Sua primeira versão neste mundo foi aquela apresentada pela serpente no jardim do Éden, mas percebo Paulo falando da mesma estratégia satânica em Romanos 1.18-23. Vamos tentar explicitar o que é essa grande mentira e, desde já, eu desafio cada leitor a examinar seu próprio coração e analisar de que modo essa mentira tem afetado sua caminhada com Jesus.

Os versos 16 e 17 do mesmo capítulo fazem um resumo do próprio evangelho. O verso 18 começa com a palavra “portanto”, ou seja, vai descrever a base do próprio evangelho:

Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça.

O evangelho se faz necessário, pois a ira de Deus não só existe, mas é demonstrada, apresentada contra toda impiedade e injustiça. Vivemos numa época em que ira é algo sempre negativo ou errado. Assim, hoje muitos cristãos negam ou rejeitam a ideia de que Deus pode se irar. No entanto, a Bíblia contém inúmeras referências à ira de Deus. Podemos ter certeza de que é uma ira santa e justa e não meramente uma explosão de raiva. E a ira de Deus se manifesta contra duas grandes áreas: impiedade (rebelião contra Deus) e injustiça (exploração do próximo). Não deveria nos surpreender que a ira de Deus se manifesta contra o que Jesus ensina como o resumo da lei: amarás a teu Deus e ao teu próximo (ver Mateus 22.36-40).

Paulo explica não só contra o que a ira de Deus se manifesta, mas contra quem: “... homens que suprimem a verdade pela injustiça”. Agora nossa atenção é arrastada para o que esses homens (assim como você e eu) fizeram – em resumo, uma camada mais profunda. Eles não só se rebelaram contra Deus e exploraram o próximo; o fundamento dessas atitudes é que eles suprimiram (esconderam, enterraram, negaram, afogaram) a verdade debaixo da injustiça.


Adão e Eva aceitaram a mentira de que havia uma plano melhor. Eles enterraram a verdade de Deus – de que foram feitos à imagem deste Deus e de que Deus tinha o bem-estar deles em mente – pela injustiça de que a desobediência era um caminho melhor... Se refletirmos um pouco, todo pecado se resume à mesma atitude. Deus se manifesta, se revela, se apresenta, mas eu sufoco essa verdade por algo que eu acho melhor. Ao continuar seu argumento em Romanos 1.21-23, Paulo apresenta algumas consequências desta atitude:

Porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e coração insensato deles obscureceu-se. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis.

Vamos olhar com um pouco mais de atenção estas consequências:

  1. Seus pensamentos tornaram-se fúteis. Ao negar a verdade, preciso elaborar alguma mentira, alguma distorção para “completar” o quadro. Com isso meus pensamentos ficam comprometidos; por mais cativantes que sejam, são distorcidos e, em última análise, falsos.

  2. Corações insensatos se obscureceram. Coração nos escritos de Paulo é tanto a sede da mente como das emoções e da vontade. Tudo isso fica obscurecido. Não significa que tudo fica errado, mas que todos os aspectos ficam comprometidos, distorcidos. Não podemos perceber a solução devido à escuridão de nossas almas, devido ao fato de que já negamos a verdadeira solução.

  3. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. Por isso, como insanos, procuramos uma solução onde não existe, pois nos recusamos a reconhecer a verdade.

  4. Passaram a adorar a criação e não o Criador. Fomos feitos para buscar fora de nós as respostas para a vida. Assim, tendo negado a priori a única resposta, precisamos fantasiar, imaginar para nós soluções falsas.

O texto de Paulo descreve a situação de um não convertido. Contudo, reconheço em minha vida e na vida de vários cristãos atitudes que expressam traços dessa grande mentira. São momentos em que eu me recuso a reconhecer a verdade de Deus e “invento” para mim uma outra explicação, que no fundo, no fundo, pela orientação do Espírito Santo, eu sei que não é verdade. Assim, oro, por você e por mim, para que o evangelho tenha seu impacto completo e contínuo em minha vida e na sua e que possamos identificar, nos arrepender e resistir à Grande Mentira.